John Byrne, o Melhor no que Faz - Parte 1: Anos 70 e 80

 

Um dos roteiristas mais influentes de todo o mercado de quadrinhos estadunidenses; um dos poucos artistas que deixou o seu toque em personagens que vão desde os medalhões das editoras até os personagens mais esquecidos pelos fãs; um homem que reformulou personagens maravilhosos e fantásticos, mas também, um desenhista que deixou seu rastro de brigas por onde quer que passasse. O Artista desse Mês é o mestre John Byrne, o melhor no que faz e o que ele faz é muito bonito. Esse artigo acabou ficando grande demais, então vou dividi-lo em duas partes, essa sendo a primeira contando seu início até 1990 e a segunda começando á partir daí e indo até os dias atuais e seus últimos trabalhos.

John Lindley Byrne nasceu em 6 de julho de 1950, no West Bronwich na Inglaterra. Quando criança, sua família se mudava muito, resultando em uma falta de conexões extrafamiliares do pequeno John, fazendo com que ele não tivesse tantos amigos e se tornasse uma criança tímida e introvertida, que se refugiava nas histórias em quadrinhos. Com 8 anos, a família se mudou para o Canadá, onde Byrne vive até hoje e ele mesmo se diz como canadense. 

John afirma que três coisas foram fundamentais para sua carreira profissional, a primeira delas foram as próprias HQs (óbvio). John se apaixonou pelos super-heróis com a série Adventures of Superman estrelada pelo George Reeves, assim ele comprou uma HQ do Super-Homem na banca e se encantou pelos desenhos mesmo sem entender muita coisa da história por ser muito novo. Quando tinha 14 anos, comprou Fantastic Four 36, que havia um mistério de quem era o Homem Invencível, quando pegou para ler, descobriu quem era nas primeiras 4 páginas, isso fez com que ele ficasse com uma pulga na orelha se ele não estaria muito velho para isso. As suas outras duas inspirações seriam a ficção científica, representada pelo seriado Star Trek e a trilogia de livros O Senhor dos Anéis de J. R. R. Tolkien.

Byrne cursou a Alberta College Art em Calgary e lá teve seu primeiro quadrinho oficialmente publicado, o The Death's-Head Knight, um projeto acadêmico cujo a faculdade gostou tanto que arcou com os custos para imprimir 500 cópias.

Depois de três anos na Alberta, ele decide sair e finalmente começar sua carreira profissional. Depois de um tempo tentando, ele acaba indo trabalhar com publicidade e durante esse período, entra para a produção de um fanzine, onde teve ilustrações publicadas e criou o mascote que seria o robôzinho Rog-2000. Através do seu trabalho no fanzine, o editor da falecida Charlton Comics, Nick Cuti, entra em contato querendo contrata-lo, e finalmente, John Byrne consegue seu primeiro trabalho com quadrinhos.

Capa do primeiro quadrinho de John Byrne.

Na Charlton, Byrne desenha diversas revistas como Space 1999, Doomsday e Emergency!. Mas antes disso, veio seu trabalho mais distinto e inusitado, o quadrinho do desenho da Hanna Barbera, Wheelie and the Chopper Bunch, que aqui no Brasil tem o incrível batismo de Carangos e Motocas. Nessa, que era uma revista infantil, John fez um trabalho mais sério do que uma revista direcionada para crianças deveria ter, fazendo com que a produtora do desenho ficasse insatisfeita com seu trabalho e apesar de ter lhe pagado, o desenhista não aceitou o dinheiro. Apesar de no momento parecer algo ruim, isso foi crucial para sua carreira, pois foi após esse evento que John decidiu que começaria a se empenhar mais no traço para criar sua própria identidade que todo desenhista deve ter e assim, ele desenhou as três revistas que citei.

Era Marvel I (1975-1985)

Em 1975, ele desenhou sua primeira revista na Marvel, Giant-size Dracula 5, esse oficialmente, foi o primeiro trabalho dele na editora, mas passemos por cima e vamos direto para o que interessa. Em agosto de 1975, o grande escrior Chris Claremont havia assumido as histórias do Punho de Ferro na revista Marvel Premiere na edição 23 com o desenhista Pat Broderick, porém, Pat atrasava demais e estava acabando com os prazos da história, então na edição 25, entra John Byrne com seu traço dinâmico e velocidade surreal para entregar as páginas. A dupla Claremont e Byrne ficam por todas as 15 edições do título próprio do herói, a Iron Fist, e além dessa, eles ainda trabalharam juntos na revista Marvel Team-Up, uma revista em que o Homem-Aranha se encontrava com algum heróis e tinha uma aventura juntos. 

Capa de Iron Fist 8, desenhada por John Byrne. Essa é a pimeira capa do título desenhada por ele

Antes de falar de um dos (talvez o) trabalhos mais importantes da carreira desse grande desenhista vou dar algumas notas rápidas sobre trabalhos que ele fez nesse período entre 1975 e 1977:

-Desenhou The Champions com roteiro de Tony Isabela;
-Desenhou Iron Man Avengers com roteiro de David Micheline;
-Cocriou os personagens Senhor das Estrelas com Chris Claremont e Scott Lang com David Micheline.

Do meio pro final dos anos 70, os X-Men passaram por uma revolução sem igual com Len Wein e Dave Cockrum na icônica Giant-Size X-men, após isso, o já citado Chris Claremont assume a revista mensal ainda com os desenhos de Cockrum. Um pouco mais de um ano depois, Dave começa a atrasar muito e Chris, descontente com isso, faz como uns anos atrás em Punho de Ferro e chama John Byrne para desenhar

Até hoje, quase 50 anos depois, alguns consideram esse período em que Chris Claremont e John Byrne ficaram à frente da revista The Uncanny X-Men como a melhor fase que a equipe já teve, eram desenhos sensacionais e roteiros incríveis que renderam histórias atemporais que marcaram a história dos quadrinhos de super-herói para sempre, seja qual for seu grau de conhecimento sobre essa mídia, você já deve ter visto alguma das capas que Byrne desenhou com os mutantes. No início, era tudo flores, os dois eram "parceirôes" e combinavam como pipoca e Guaraná, depois durante a icônica Saga da Fênix Negra, Byrne começou a ter participação nas concepções das histórias, participar do argumento, uma coisa que Chris Claremont não gostou muito, e assim começaram os atritos que desencadeou na saída de Byrne do título, tendo uma longeva fase da edição 108 a 142 de The Uncanny X-Men.

Capas de X-Men 136 e 141 por John Byrne. Você, que não manja de quadrinhos, já deve ter visto uma dessas.

Entre os destaques de sua passagem pelos mutantes estão a caracterização maior de Wolverine, que passou de um personagem secundário turrão genérico para alguém com personalidade e se tornando o mutante mais popular da equipe e a criação da Tropa Alfa (Alpha Flight), uma equipe governamental canadense composta apenas por mutantes, um embrião do que seria a X-Factor nos anos 90 que ele criou para homenagear seu amado Canadá, posteriormente a Tropa Alfa ganha uma revista mensal que foi escrita e desenhada por John Byrne durante muitas edições.

Uma coisa que preciso dizer sobre John Byrne é sobre sua velocidade, este é um  detalhe que contextualiza a próxima etapa de sua história. Para se ter uma ideia, um desenhista precisa desenhar em torno de 22 a 24 páginas por mês considerando que ele desenhe apenas uma revista, John já chegou a desenhar 3 revistas mensais paralelamente e as três impecáveis, isso é uma habilidade que muitos artistas gostariam de ter (e como você pôde ver aqui, alguns não tinham) então se você for pesquisar depois desse artigo mais sobre esse grande artista, vai perceber que ele tem um grande volume de trabalhos, pois conseguia entregar muitas coisas ao mesmo tempo e com uma qualidade muito boa.

No ano de 1980, entre fevereiro e outubro, John Byrne estava desenhando três revistas mensais, uma delas era Uncanny X-Men que já foi falado antes, onde o último número com desenho dele foi publicado em outubro. As outras duas eram Fantastic Four, revista que ele assumiu também os roteiros em abril na edição 220; e Captain America com roteiros de Roger Stern. Vou ter que passar um pouco por cima de suas histórias no Capitão América pois acaba que não tem tanta relevância para a história do artista, o que eu posso dizer é que seu traço nessa fase já estava mais próximo do John Byrne característico que conhecemos e amamos.

Agora no Quarteto, rapaz...

Eu ainda não li, então não posso falar sobre a qualidade de suas histórias mas é uma fase extremamente elogiada e muito importante para a mitologia do Quarteto Fantástico. Entre os destaques estão a mudança do nome da Garota Invisível para Mulher Invisível; após as Guerras Secretas, ele deixa o Coisa no mundo de Beyonder e põe a Mulher-Hulk em seu lugar que fica até o final de sua fase integrando a equipe; transformou o Doutor Destino no principal vilão da família como ele é até hoje; apresentou o pai do Senhor Fantástico, Nathaniel Richards, um viajante espaço-temporal que abandonou o filho em prol da ciência.

Capas de Fantastic Four 236, edição comemorativa de 20 anos;
Captain America 250, icônica história em que o herói concorre a presidência. Por John Byrne

Em 1983, quando estava no final de sua fase no Quarteto Fantástico, ele começa a escrever e desenhar o título próprio da Tropa Alfa, uma curta fase de 28 edições (um pouco mais de 2 anos) onde ele desenvolve seus adorados heróis canadenses criados previamente nos X-Men, assim ele faz uma das coisas mais importantes para toda a indústria das histórias em quadrinhos de super-heróis: criou o primeiro personagem abertamente gay. Estrela Polar ou Jean-Paul Beaubier que é seu nome civil, foi criado por Byrne e Claremont em X-Men 120 junto com toda a Tropa Alfa e foi sendo desenvolvido ao longo das edições da mensal da equipe canadense, com a revelação de sua sexualidade, Estrela Polar se torna um marco nos quadrinhos pois em um país extremamente conservador (Estados Unidos) em uma época onde esses assuntos não eram tão abordados na mídia, Byrne foi lá e fez.

Outro trabalho que Byrne teve foi a Mulher-Hulk, que em 85 fez a Graphic Novel 18 onde conta a história de como ela não pôde mais se transformar em Jennifer Walters e ficou presa permanentemente na forma de gigante esmeralda, por fim seu último trabalho na Casa das Ideias nesse período foi sua curtíssima fase na revista Incredible Hulk apenas da edição 314 a 319 e um anual em 1986 onde ele briga com Jim Shooter (1951-2025) e sai da editora, indo finalmente, para a editora das lendas.

Capas de Alpha Flight 1, Marvel Graphic Novel 18 e The Incredible Hulk 314. Por John Byrne.

Era DC Comics I (1986-1989)

Logo após sua saída da Marvel, Dick Giordano (1932-2010), editor-chefe da DC na época, liga para John com a intenção de chama-lo para reformular o maior herói da editora: o Super-Homem. Um ano antes havia ocorrido o mega evento cataclísmico Crise nas Infinitas Terras onde toda a história do Universo DC foi reiniciada e precisaram de novos autores para recontar as histórias dos seus principais personagens; Frank Miller ficou com o Batman e escreveu "Batman: Ano Um", George Pérez (1954-2022) recontou a origem da Mulher-Maravilha em uma nova revista mensal; e para completar a trindade, nosso canadense favorito recontou os primeiros anos do Super-Homem e reimaginou a distópica Krypton na minissérie The Man of Steel.

Capa variante e capa (esquerda pra direita) de The Man of Steel 1. Por John Byrne.

Byrne refez o Super-Homem de uma forma completamente nova, acrescentando detalhes que repercutem até hoje e se tornaram cruciais na cronologia do personagem. A versão conhecida dos leitores na época era praticamente a da Era de Prata, uma versão onde o herói era quase um deus, rebocava planetas sozinho entre outros supercasos, o escritor queria focar mais na parte do HOMEM e não do SUPER (familiar, não?).

Com sua Krypton futurista, fria e anti-séptica (adjetivo que o próprio Byrne usou), o Escritor mudou completamente o que o herói era na época e até enfureceu alguns fãs apenas no anúncio de que estaria escrevendo e desenhando o personagem. 

Após a minissérie, Byrne assumiu as três mensais do herói: Superman, Action Comics e Adventures of Superman além dessas, escreveu as minisséries World of Smallville, World of Krypton e World of Metropolis, todas contando histórias secretas de coadjuvantes do Homem de Aço e de seu principais ambientes.

Era Marvel II (1988-1990)

Em 2 anos, John trabalhou em aproximadamente 75 projetos ligados ao Super-Homem, coisa que se fosse corrido em uma revista mensal daria 6 anos de trabalho, com essa sobrecarga de trabalhos e o descaso que estava sofrendo na DC, sendo inclusive chamado de "desnecessário" em uma matéria sobre os 50 anos do Homem de Aço, ele decide sair da editora o que coincidiu com a saída de Jim Shooter da Marvel, o editor-chefe que Byrne brigou quando saiu pela primeira vez.

Na Marvel, Shooter havia criado o chamado "Novo Universo" uma coletânea de títulos novos, com personagens novos, tudo novo... que deu completamente errado, Isso provocou sua saída da Marvel e Howard Mackie ascendeu a posição de editor, que chamou Byrne para escrever a revista Star Brand ("Estigma" no Brasil) que era escrita pelo Jim Shooter (doce vingança).

Capa de Star Brand 11. Por John Byrne

Nesse novo período na Marvel, Byrne também trabalhou em alguns outros títulos além de Estigma, sendo eles Avengers, Avengers West CoastShe-Hulk e Namor: The Submariner, o primeiro era apenas escrito por ele enquanto os outros três ele desenhava também.

A mecânica em que ele colocou os Vingadores durante sua fase era incrível, apenas o Capitão América era membro fixo enquanto os outros membros mudavam dependendo do problema e do conflito da história. Nos Vingadores da Costa Oeste, Byrne deixa como protagonistas a Feiticeira Escarlate e Visão, sendo o primeiro arco uma história pica da equipe em busca de Visão que desapareceu e descobrem que ele foi desmontado e remontado pelo governo e assim se tornou frio e não tinha mais sentimentos por Wanda, talvez todo o destaque que esses dois personagens tem no MCU se devem ao autor

Na Mulher-Hulk, John fez algo que repercutiu para sempre nos quadrinhos, quebrou a quarta parede. Óbvio que ele não foi o primeiro, nem nos quadrinhos em geral nem nos de super-heróis, mas a fase dele com a gigante esmeralda foi marcante pois ele satirizou a indústria como ninguém havia feito antes. Uma coisa curiosa ocorreu pois ele fez apenas das edições 1-8 do título já que quando chegou nesse momento (agora senta que lá vem história) uma minissérie seria feita contando o casamento da Mulher-Hulk com Wyatt Wingfoot mas não seria escrita por ele, então Mark Gruenwald (1953-1996) editor na época, decidiu que o roteiro seria enviado ao Byrne para ele fazer anotações, observações e coisas assim, então isso ocorreu, o roteiro foi enviado e voltou com todas as coisas que deveriam mudar, mas, por algum motivo, a editora de minissérie, Bobbie Chase, simplesmente ignorou tudo que estava escrito. Quando Gruenwald descobriu isso, ele brigou com Chase e os dois acabaram levando o caso para o editor-chefe Tom DeFalco, que já era tretado com Byrne, e o que aconteceu? Sobrou para John Byrne. Ele foi demitido e não pôde trabalhar mais na Mulher-Hulk

Por fim, ele assume a volta do personagem Namor, O Príncipe Submarino que ganha uma nova revista mensal em 1990 onde Byrne escreve e desenha até a 25 e depois apenas escreve até a 32 com arte do Jae Lee. Em 1989 ele também desenhou a revista Wolverine do número 17 a 23 com roteiros de Archie Goodwin (1937-1998).

Capas de West Coast Avengers 43, The Sensational She-Hulk 1, Namor 1 e Wolverine 17
Por John Byrne.

Onde encontrar os trabalhos citados nesse artigo:

Os Fabulosos X-Men: Edição Definitiva vols. 5-7
Mulher-Hulk por John Byrne (omnibus)
Quarteto Fantástico por John Byrne vols. 1 e 2 (omnibus)
Namor, O Príncipe Submarino por John Byrne (omnibus)
Tropa Alfa por John Byrne (omnibus)
Coleção Histórica Marvel: Wolverine vol. 4
Vingadores: A Busca pelo Visão (Vingadores da Costa Oeste)
Hulk: Batismo de Fogo
A Saga do Superman vols. 1-14
Os Heróis Mais Poderosos da Marvel vol. 7: Capitão América ou Capitão América: À Primeira Luz da Aurora (Epic Collection)
Punho de Ferro: A Fúria do Punho de Ferro (Epic Collection)

E assim termino a primeira parte desse artigo sobre esse grande artista que é o John Byrne. Leia a segunda parte que contará sobre sua jornada nos anos 90 e 2000 além de minha relação com os trabalhos do artista. Então fique para ler a segunda parte porque a história desse homem é cercada por trabalhos incríveis. A principal fonte para esse texto foi os vídeos do canal Pipoca e Nanquim sobre o John Byrne. Até a próxima! 

Por Theo Pacheco.

P.S.: Todos os trabalhos citados foram publicados também nos formatinhos da Editora Abril, de todos, apenas o Namor foi publicado incompleto. Se você tiver paciência e uma gibiteca na sua cidade, recomendo o site Guia dos Quadrinhos como pesquisa para saber em quais edições eles foram publicados.

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