Olá, DCnautas! Há quanto tempo! Para começar essa nova fase do blog, o primeiro artigo é uma grande review sobre a fase completa do escritor Tom Taylor na revista do Asa Noturna. As seis primeiras edições dessa fase já foram resenhadas aqui.
Antes de começar a review, preciso dizer algumas coisas sobre como o blog funcionará este ano; como vocês leitores obviamente perceberam, o blog entrou em hiato após o último artigo em setembro do ano passado, essa pausa foi tanto voluntária quanto involuntária, parte pessoal, parte "profissional". Para resumir, eu comecei a ler muita coisa simultaneamente e assim a frequência de duas reviews por semana estava ficando quase impossível para mim, então tive que parar por tempo indefinido com vários artigos abertos e séries que comecei aqui e não fui até o final (Tem três fases aqui que não passaram do volume 2). Neste começo de ano pretendo voltar a escrever pois é algo que eu realmente amo porém preciso fazer algumas observações de como vai ser daqui em diante:
A fase da qual eu vou resenhar aqui foi publicada em Nightwing (2016) 84-118 e os Anuais de 2021 e 2022, publicadas entre 2021 e 2024, das edições 78-83 eu falei lá no outro artigo. Aqui no Brasil, você pode encontrar essa fase completa na coleção de 9 volumes da Panini.
(OBVIAMENTE) CONTÉM SPOILERS
Como já dito, a fase é completamente escrita por Tom Taylor e tem como desenhista principal o Bruno Redondo (78-83, 87-89, 92-93, 95-96, 100, 105, 113-118), porém passam como artistas convidados Robbi Rodriguez (84-86), Geraldo Borges (90-91, 94, 97, 99), Daniele Di Nicuolo (98, 113), Travis Moore (101-104), Stephen Byrne (106-109) e Sami Basri (110-112).
Ler essa fase inteira foi uma das experiências mais gostosas que eu já tive na minha vida de leitor de quadrinhos, é uma fase tão leve e divertida que consegue manter seu nível durante todas as 43 edições, sempre ficando muito bom ou apenas bom porém jamais ruim; Taylor e Redondo fazem um trabalho excepcional explorando estilos diferentes de produzir uma história em quadrinhos como a edição 105 que todas as páginas seguem a mesma formação de três quadros horizontais desenhados em primeira pessoa, uma edição feita para você se sentir como o Asa Noturna, ou mesmo a edição 87 que é toda em páginas duplas formando sequências onde você vê os movimentos de Dick e Bárbara enfrentando bandidos.
| Sequência do Asa Noturna saltando em Nightwing 87 |
| Asa Noturna e Batgirl entrando em um vagão em movimento em Nightwing 105 |
Bruno Redondo mostra que ele é um dos grandes desenhistas da atualidade nessas edições que tem estilos de narrativas diferentes, além de dominar completamente os fundamentos do desenho. A única crítica que eu tenho a ele é que todos os rostos masculinos são um pouco parecidos mas ele compensa isso fazendo corpos e fisionomias completamente diferentes para cada personagem.
Ainda falando sobre a parte artística, eu devo elogiar as capas dessa fase, todas elas são feitas pelo Bruno Redondo e vale muito dar uma conferida, além delas, preciso citar as capas variantes feitas por Dan Mora, o melhor desenhista da atualidade e com certeza o que está mais em voga. O artista fez capas variantes das edições 99 e 100 e da 105 a 115, confira abaixo.
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| Capas variantes de Nightwing 100, 105-115 por Dan Mora |
De todas as fases de roteiristas que eu já li na minha curta vida de leitor de quadrinhos de super-herói, essa é uma das únicas que deu pra perceber que o escritor já tinha tudo em mente do que queria fazer antes mesmo de começar a escrever, coisa que eu só tinha visto anteriormente no clássico Homem-Animal por Grant Morrison. Por que eu digo isso? Pois a PRIMEIRA CENA da PRIMEIRA EDIÇÃO mostra Dick quando criança enfrentando um valentão chamado Shelton Lyle que posteriormente se torna o Sem Coração, vilão principal de toda a fase. Desde a primeira página, Taylor estava desenvolvendo o vilão principal que permearia sua longa fase de três anos, uma história bem construída nos mínimos detalhes e com o tempo necessário.
Temos uma edição muito especial nessa fase: a Nightwing 100. Um grande especial com o dobro de páginas que reúne artistas importantes de toda a história do personagem, sendo eles Scott McDaniel, Rick Leonardi, Eddy Barrows (conhecido como o brasileiro Eduardo Barroso), Javier Fernandez e Mikel Janín. Na história, ocorre uma fuga em massa da penitenciária de Blüdhaven causada pelo Sem Coração e Asa Noturna precisa contar com a ajuda de vários amigos super-heróis (superamigos) para conter os prisioneiros à solta. Temos nessa história o convite do próprio Super-Homem ao Asa Noturna para se tornar o novo líder da Liga da Justiça, um reconhecimento do maior herói da história comprovando que Dick se tornou um líder melhor que ele e até melhor que o próprio Batman. Outro momento muito marcante nessa edição que quase me fez chorar é o diálogo no final entre Bruce e Dick em frente ao túmulo do Alfred, onde eles refletem sobre a importância deles na vida de ambos, que se encerra com essa cena linda.
| Isso aqui faz qualquer fã de Batman chorar. Por Bruno Redondo. |
| Capa da edição 100. Por Bruno Redondo. |
A fase toda é dividida em pequenos arcos que sempre agregam alguma coisa à grande trama que Taylor quer contar, a maioria são muito bons, porém há uma sequência de histórias que eu acho que ficou meio jogada na história. Das edições 101-104, Dick cria uma nova formação dos Titãs e constrói uma nova Torre Titã na antiga penitenciária de Blüdhaven, então eles descobrem que o Arrasa Quarteirão, (ex-chefão do crime da cidade assassinado pelo Sem Coração) fez um acordo com o demônio Neron que envolvia sua filha, então os Titãs precisam ir ao Inferno salvar a garotinha. A história em si é legal e não chega a ser ruim mas ela fica abaixo das expectativas principalmente pelo fato que se passa logo depois da edição 100 que te deixa com as expectativas lá no alto. Eu entendo que esse arco na verdade só serviu mais para introduzir essa formação dos Titãs para a nova mensal mas poderia ter sido um pouco melhor, ainda mais que essa filha do Arrasa Quarteirão foi completamente esquecida lá em Themyscira.
Pelo menos depois desse arco que ficou aquém do esperado, tem dois arcos maravilhosos extremamente bem escritos que mostram o passado do Dick de maneiras diferentes e exploram coisas muito legais. O primeiro é "A Tripulação do Cruzado" ("The Crew of the Crossed") das edições 106-109, que explora a época de quando Dick perdeu a memória e se tornou Rick Grayson durante um tempo. Nessa época ele se envolve com Bea que é revelada como uma rainha pirata (?) e agora eles precisam se ajudar para que o seu trono não seja usurpado por um meio-irmão maligno, estou resumindo MUITO. Esse arco apesar de ter uma premissa bem aleatória é muito divertido e traz um lado diferente do Asa Noturna que não havia sido mostrado antes: Ele lidando com uma pessoa que magoou profundamente. A relação dele com Bea é muito bem mostrada e mesmo alguém que não leu a fase anterior (como eu) consegue entender o passado que os dois tiveram e como Dick ainda se importava com ela mesmo não sendo mais a pessoa que a conheceu. Outro fato importante que nos é mostrado nesse arco é o medo que Dick está desenvolvendo de altura, algo que ele já havia superado fazia tempo pois passou sua infância como trapezista. No final do arco, eles conseguem derrotar o meio-irmão maligno e Asa Noturna acha uma um vídeo que comprova que Tony Zucco era o verdadeiro assassino de seus pais.
Após essa história tem um pequeno arcozinho de só duas edições do Asa Noturna com o Batman, que apesar de ser apenas uma história de transição para o próximo arco que seria o último e a grande finalização da fase, ele é muito bom, explora a relação de pai e filho dos dois, como ambos se complementam em lutas, investigações e em situações da vida, enquanto eles investigam um assassinato de um pai que o culpado supostamente seria o Sem Coração, assim os heróis precisam cuidar do filho órfão enquanto investigam quem foi o real assassino. Esse paralelo que Taylor traz intercalando a trama com flashbacks de quando Bruce adotou o Dick e agora de como o Asa Noturna cuida da criança carente, que perdeu sua família é perfeito.
Agora eu preciso falar sobre a melhor edição da fase inteira: Nightwing 113 também conhecida como Nightwing 300 na numeração Legado*. Nessa edição, ocorre o aniversário do Dick Grayson, conhecido agora como grande filantropo e salvador da cidade de Blüdhaven, nesse dia ele irá receber a chave da cidade direto das mãos da prefeita. Ela é coescrita pelo lendário Marv Wolfman, o escritor que transformou o Robin em Asa Noturna na revista The New Teen Titans lá em 1984. As últimas páginas é uma linda homenagem ao desenhista George Pérez (na minha opinião, o melhor desenhista de super-herói que já existiu) que ajudou na criação do Asa Noturna e havia falecido dois anos antes. Nessas últimas páginas, Dick diz que em comemoração levaria todos ao melhor resturante da cidade, o Marv & George's Pizza, o que nos rende uma aparição do próprio Marv Wolfman desenhado por Bruno Redondo.
| Que lindo, cara. Por Bruno Redondo |
| Capa da edição 113. Por Bruno Redondo |
E por fim, nós temos o último arco, "Grayson Caído" ("Fallen Grayson"), um arco de cinco edições que é o grande clímax da saga, o confronto final entre Asa Noturna e Sem Coração, a conclusão do conflito pelo coração de Blüdhaven. Shelton Lyle incrimina Dick de ser o vilão que assombra a cidade, para que assim, os cidadãos percam a confiança em seu principal herói e o Sem Coração verdadeiro consiga tomar o controle de Blüdhaven e ainda por cima destruir a vida de Dick, assim, Asa Noturna foragido da polícia vai para a cidade mística de Namda Parbat se reencontrar com o Desafiador para vencer seu medo de altura, causado por um tipo de toxina do medo que Shelton o injetou na edição 105.
Esse arco é perfeito. É uma finalização digna de uma fase tão leve e divertida como essa, a única conclusão possível para qual a série estava se encaminhando. A grande mensagem desta série e o que realmente move todas as tramas é que a amizade e a família são as coisas mais importantes que alguém pode ter; todos os arcos, histórias, tramas, são movidas por isso, pela relação que Dick tem com seus amigos e familiares, seja com seu pai, sua namorada, seus irmão mais novos ou seus amigos de infância, isso equilibrado com dois vilões: o Arrasa Quarteirão que envolveu sua filha em um pacto com um demônio e o Sem Coração, uma pessoa que na infância viu dois pais morrerem na frente do filho e que ativou um instinto psicopata que o fez se tornar um serial killer que mata apenas pais da maneira mais cruel possível, arrancando seu corações e deixando seus filhos "jogados aos lobos". O grande embate da fase é o amor contra o ódio.
No embate final entre Asa Noturna e Sem Coração, o Asa diz o seguinte ao vilão:
"Eu só estou cansado. Cansado de você. Cansado de todos como você. Os obcecados por si mesmos. Gananciosos. Exibidos. Você achou que podia comprar força. Mas não colocou nenhum esforço. Você comprou força bruta. Mas isso não faz de você poderoso."
Isso é uma síntese de tudo o que eu acabei de dizer, mesmo que Shelton tivesse dinheiro, uma empresa multinacional que faturava milhões, um corpo completamente modificado para deixá-lo mais forte, mais rápido, mais poderoso, ele não tinha a coisa mais importante: Amor.
No final, o coração do Arrasa Quarteirão que Shelton havia implantado em si mesmo explode, não foi o Asa Noturna que o derrotou, e sim sua própria arrogância de querer se tornar mais e mais, e quando ele pensa que Blüdhaven se lembrará dele para sempre, Dick revela que desvinculou qualquer coisa possível que pudesse ligar o Sem Coração a ele e que o vilão agora seria um reflexo sem rosto do que a cidade conseguiu superar.
No começo da última edição, ele diz que "Dizem que o lar é onde o coração está. Eu entendo. Nos mudávamos sempre quando era criança, então onde quer que eu e meus pais estivéssemos juntos, era nosso lar. Quando Zucco matou minha mãe e meu pai, ele também tirou isso de mim". No final da mesma edição, Dick conversa com o túmulo de seus pais contando tudo que aconteceu com ele e faz um paralelo com essa mesma fala, finalizando a fase com:
"Eu só queria finalmente vir e dizer obrigado. Eu amo vocês. E eu queria dizer que encontrei um novo lar."
| No quadrado: "Meu coração está aqui". |
E termina com essa página linda do Dick, da Bárbara e de sua cadelinha Haley apreciando a paisagem de Blüdhaven, onde eles podem ter um lar.
Esse foi o melhor final de fase que eu já li sem dúvidas, eu não tenho nem palavras para descrever o quão magnânimo essas 43 edições foram, um roteiro que envolve, um desenho que te embala, tudo é incrível e majestoso nessa fase do Tom Taylor. Nota: 10/10 (não poderia ser outra).
| P.S.: Esse visual do Asa Noturna é incrível, se ele continuasse usando ele eu não iria reclamar. Capa variante da edição 118 por Bruno Redondo |
CALMA QUE AINDA NÃO ACABOU! Como leitura complementar ainda tem a história curta "Asa Noturna/Wolverine: Saindo da Sombra" ("Nightwing/ Wolverine: Sticks & Snikts) publicada no crossover Batman/Deadpool e escrita por Tom Taylor e desenhada por Bruno Redondo.
| Capa variante de Batman/Deadpool. Por Bruno Redondo. |
Na história, Laura Kinney, a Wolverine, vai para Gotham à procura do Batman pois usa irmã mais nova foi sequestrada e levada para a rede de esgotos, assim ela se encontra com o Asa Noturna e os dois vão salvar a irmãzinha mais nova. É uma história bem legal e a melhor história secundária da revista, ela trata de legado e o peso de "estar à altura dos melhores no que fazem". Como o Tom Taylor já escreveu os dois personagens, ele conseguiu escrever muito bem ambos, óbvio que com a limitação de ser uma história de 10 páginas.
Agora sim acabou. Muito obrigado a você, leitor, que chegou até aqui, continue lendo as reviews e comente o que achou, já tem mais de 30 artigos te esperando aqui no blog se esse for o seu primeiro. Até a próxima!
Por Theo Pacheco.
| Tchauzinho! Por Bruno Redondo. |
*Numeração Legado é o resultado da soma de todas as revistas de um mesmo personagem lançado ao longo dos anos, ou seja, somando todas as revistas do Asa Noturna lançadas desde que ele começou a ter revista solo, a edição 113 de 2024 é a 300 no total. Sacou?


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